The Rocky horror picture show (1975)

Publicado: 16/10/2011 em Review
Tags:, , ,
The Rocky horror picture show (The Rocky horror picture show)  - 1975
Direção: Jim Sharman
Roteiro: Richard O’Brien e Jim Sharman
Com: Tim Curry, Susan Sarandon e Barry Bostwick
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Muitas vezes sou questionado por pessoas que conhecem, mas não necessariamente entendem minha paixão por cinema. Repetidamente ouço a pergunta: “Qual é a graça de ficar vendo tanto filme?” E eu acho que uma das melhores formas de se responder a esta pergunta é explicando os motivos pelos quais eu amo The Rocky horror picture show.

É incrível, quase miraculosa, a forma como o cinema se reinventa constantemente, acompanhando a evolução de pensamento humano. E nem falo do fator técnico da coisa, pois isso é óbvio demais, mas sim da maneira como as histórias evoluíram, e ganharam consistência com o passar dos anos. Tal evolução pode ser vista claramente no filme que agora comento. Pensar que em 1975 um filme iria trazer na tessitura assuntos como incesto, homossexualidade, canibalismo, e uma total falta de pudor em relação à exposição do sexo, é inconcebível. Não disse discutir, que fique bem claro. Mas o simples ato de incorporar tais pontos em sua narrativa já escancara o quanto Rocky Horror estava anos a frente de seus companheiros. Se até algumas décadas atrás, sexo era proibido pelos estúdios e qualquer referência ao ato em si era totalmente velada, é fácil imaginar o quanto um filme como este pode mexer com a cabeça da sociedade “purista” dependendo da época que o recebe. Quando foi lançado Rocky Horror fracassou nas bilheterias, foi massacrado pela crítica, e demorou um tempo até encontrar seu lugar entre as sessões noturnas aonde iam aqueles que também não sabendo exatamente seu lugar na sociedade, se refugiavam por algumas horas numa sala de cinema, extravasando suas emoções com um filme que lhes dava o direito de abraçar sua bizarrice, sua revolta e inquietude.

Dirigido por Jim Sharman, The Rocky horror picture show é uma viagem insana, psicodélica e delirante que não sabendo de onde se parte, pouco se importa o destino. A única coisa que demanda é total entrega de quem se aventura por seus obscuros labirintos. Por tal motivo é difícil elaborar uma sinopse do roteiro. Rocky Horror é um amontoado de tudo, desde os filmes-B ao qual constantemente reverencia, até o humor mais louco e desapegado. Começa o filme com um casamento onde estão presentes os mocinhos da película, Brad e Janet. Após pegar o buquê, Janet recebe o pedido de noivado de seu amado. Começa então, assim, sem aviso, sem motivo, uma canção sobre como Brad ama Janet, e Janet ama Brad. Tudo envolto por uma releitura viva do American Gothic, e com direito até á velório na igreja que a pouco sacramentava o destino de dois amantes. Vai que depois de muita vergonha alheia, Brad e Janet estão andando de carro numa noite chuvosa por uma estrada escura. O pneu fura, e eles vão procurar abrigo num castelo pelo qual haviam passado não fazia muito. Não sem antes entoarem a deliciosa “Over the Frankestein place”. São recepcionados então pelo mordomo taciturno Riff Raff, que os convida a entrar. E é quando começa a genial “Time warp” que Rocky Horror perde qualquer vestígio de sanidade e se entrega de vez a uma loucura desenfreada e saborosa. Muitas outras músicas fantásticas irão tocar, um travesti devasso vindo do planeta Transexual (Tim Curry, soberbo) faz às vezes de host do bacanal, e somos sugados como num turbilhão para dentro desta suruba toda. É sério, dizer simplesmente que o filme abandona a narrativa convencional e se entrega à anarquia, é um eufemismo. Não tenho palavras para descrever a sensação que é assistir ao furacão que toma conta da tela pelos 70 minutos seguintes.

É fácil entender o porquê de este filme ter caído no gosto do público que ia prestigiá-lo nas midnight sessions. Para além das qualidades, a sessão de Rocky Horror ainda oferecia a oportunidade de a audiência “interagir” com o filme, cantar sem medo suas músicas e coreografar as danças, e usar acessórios conforme as cenas eram exibidas (um sonho que quero realizar algum dia). Resumindo, a magia do cinema traduzida de fato. Em um filme que ousa, que excita e incita nossa capacidade de abraçar e aceitar as diferenças, nos entregarmos “ao prazer absoluto, e nadarmos pelas águas do pecado da carne” sem pudores estabelecidos por uma ideia preconcebida do que é certo e do que não é.

E daí eu volto para a pergunta que abre meu texto. A graça, o motivo, o porquê de eu dedicar boa parte da minha vida em ver histórias inventadas, interpretadas por pessoas que na verdade nunca as viveram? Porque é o cinema que me faz chorar, sorrir, que enche meu coração de uma alegria quase opressora, e da mais profunda tristeza. É basicamente, porque filmes como Rocky horror picture show existem.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s